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sexta-feira, 22 de abril de 2016

O que é ser um pai realizado? (artigo)


Resumo: Depois que me tornei pai, comecei a refletir sobre o tamanho da responsabilidade que é criar e educar os filhos. Tentei reduzir essa tarefa imensa a algumas linhas, para servir de base para mim mesmo ao longo dos anos que estão por vir. Talvez outras pessoas possam se identificar com essas mesmas linhas, por isso estou deixando-as aqui publicadas.

Sempre tive o sonho de ter uma família, uma esposa que me amasse muito e filhos a quem eu poderia ensinar o pouco que sei e mostrar as mais belas coisas do mundo pela primeira vez. Eu imaginava como seria a expressão no rosto dos meus filhos quando eles vissem o mar pela primeira vez, a primeira ida ao zoológico. “– Papai, olha, um leão!”. As crianças têm a oportunidade de experimentar sensações pela primeira vez e a dádiva de ainda não terem se fechado emocionalmente com vergonha de expressar suas emoções. Para quem assiste, é um espetáculo sem comparação.
Esse sempre foi meu sonho e, graças a Deus, estou conseguindo realizá-lo. Tenho 34 anos e uma esposa linda, que é minha namorada e companheira na alegria e na tristeza há 13 anos. Temos uma menina linda de 4 anos, Beatriz, e um pequeno ainda no forno, Mateus, que deve fazer sua estreia neste mundo no final de junho de 2015.
Não obstante os sonhos que eu sempre tive quando jovem, desde o nascimento da minha filha, passei a refletir um pouco melhor sobre o que eu quero, de fato, mostrar e ensinar aos meus filhos. No excelente discurso de Steve Jobs aos formandos da Universidade de Stanford, em 2005, o fundador da Apple comentou que foi diagnosticado com um câncer no pâncreas e que uma das primeiras coisas que ele pensou sobre o diagnóstico foi: “Significa ter que dizer aos seus filhos, em alguns meses, o que você pensou que teria os próximos 10 anos para dizer”.
Essas palavras me fizeram pensar... pensar muito... A vida moderna é complicadíssima. Cada vez fica mais difícil encontrar seu espaço neste mundo. Pode-se dizer que é mais fácil ganhar na loteria do que atingir a excelência no polinômio: Trabalho – Realização profissional – Dinheiro – Realização pessoal – Vida familiar – Vida afetiva... E a lista continua. Quem achar que estou exagerando que atire a primeira pedra. Conseguir ensinar, ou auxiliar, meus filhos a dominar tantos aspectos da vida vai levar décadas (eu mesmo, estou longe de conseguir dominar qualquer coisa – muito longe).
Mas e se eu não tiver tanto tempo? E se eu tivesse só este artigo? Qual seria o mínimo que eu precisaria ensinar aos meus filhos para me considerar um pai realizado? Quem é pai sabe o quão inatingível é essa última pergunta.
Depois de muito refletir, e logicamente influenciado pelas minhas experiências pessoais, cheguei à conclusão de que, se eu conseguir incutir nos meus filhos três características básicas, vou me considerar um pai realizado:
1º – Não ter medo de trabalho duro. Muito duro. Seja físico ou intelectual;
2º – Manter-se constantemente aprendendo, curioso, lendo, descobrindo;
3º – Acreditar que nada é impossível.
Ernest_Hemingway_with_sons_Patrick_and_Gregory_with_kittens_in_Finca_Vigia,_Cuba.jpgErnest Hemingway brincando com os filhos em Cuba.
Não sou guru. Não tenho e nem nunca tive uma ideia original. Esses três pontos não representam nada de novo para muita gente, são quase clichês do século 21, mas para mim, foi o meu momento “Eureka” como pai.
Veja, esses três aspectos são como um tripé, na falta de um, os outros dois não se sustentam. De nada adianta simplesmente trabalhar duro, sem rumo, sem foco. Muitas pessoas trabalham duro a vida inteira e não se sentem realizadas, não alcançam os seus sonhos. Ler muito e ser curioso por continuar aprendendo, por si só, sem trabalho, sem dedicação, não leva a lugar algum também. E por fim, se você não acreditar que pode realizar seus sonhos, não vai trabalhar duro e não vai se interessar por continuar aprendendo.
Com as raríssimas exceções daqueles que recebem tudo de mão beijada, nada nesta vida se alcança sem muito trabalho duro, mas a nova geração ainda não se deu conta disso. Então, não ter medo de trabalho duro, já colocará meus filhos à frente de mais da metade da população mundial deste novo milênio. “Beatriz, você quer ser bailarina? Esteja preparada para anos e anos de muito treino e dedicação.” “Mateus, você quer ser astronauta, piloto de avião, Juiz ou o que quer que seja? Somente se estiver disposto a enfrentar de peito aberto anos e anos de trabalho duro e dedicação é que você conseguirá alcançar o seu sonho. Não existem atalhos, meu filho."
Sou bibliófilo de carteirinha. Adoro ler e ter a oportunidade de viver situações que jamais viveria na vida real. Ver acontecimentos por pontos de vista completamente distintos do meu, aprender sempre e o máximo possível. Eu sou o produto de todos os livros que li na vida.
Com meu espírito leitor, dedico-me bastante, diariamente, para despertar nos meus filhos o prazer da leitura. (Peraí, “filhos”? No plural? Mas o Mateus ainda nem nasceu!) Pois é, mas eu também leio para o Mateus, que ainda está dentro da barriga da minha esposa! Também ouvimos música com ele e conversamos sobre os mais variados temas! (rs) Acredito que ler, ler muito, em profusão, todos os dias, infinitamente, o tempo todo, o ano inteiro, é, em uma só palavra: fundamental! Os livros poderão ensinar aos meus filhos muito mais coisas do que eu jamais conseguiria, então, minha prioridade é fazê-los gostar de ler, o resto é entre eles e os livros.
Por fim: acreditar.
Sabe aquela pergunta que todo mundo faz às crianças: “O que você vai ser quando crescer?” Essa pergunta, em um dia distante da minha infância, ficou marcada para sempre na minha memória, mas não na ordem natural. Quem fez a pergunta fui eu. Eu tinha 6 ou 7 anos de idade e perguntei a minha mãe: “Mãe, o que EU vou ser quando crescer?”. Ela, inspirada pela sabedoria infinita da maternidade, disse:
“– Você pode ser o que você quiser!”
“– Mesmo astronauta? Ou até Presidente?”
“– Sim. O que você quiser!”
Aquele foi um momento libertador. A partir daquele momento eu podia ser o que quisesse! (Podia sim, minha mãe me disse! rs). E essa liberdade me fez perder o medo de tentar qualquer coisa, mesmo que parecesse maluca ou inatingível. E nesses 34 anos eu já fiz muita coisa que foi considerada completamente maluca e inatingível para as pessoas ao meu redor, mas deu certo! Meus filhos, acreditem em vocês mesmos!!
Esses seriam os conselhos mais básicos que eu poderia dar aos meus filhos, na esperança de que sejam suficientes. Contudo, se Deus permitir, pretendo estar ao lado deles por muitos e muitos anos ainda, compartilhando cada momento, desfrutando de cada olhar, de cada nova descoberta. Amo vocês!
O desejo inicial era ser resumido, mas nem sempre a gente consegue realizar 100% do planejado. Preciso aprender com essa experiência e melhorar no futuro. Aprender com os próprios erros também é um bom conselho. Quem sabe esse pode ser o último dos meus três ensinamentos para meus filhos, como em “Os três mosqueteiros”, que na verdade eram quatro.
Ao ler este texto, você pode achar que a minha “receita básica de sucesso” é, na verdade, mais uma autobiografia resumida do que, de fato, conselhos para meus filhos. E eu sou obrigado a concordar com você! Mas, por mais condescendente que possa soar, mesmo com meus inúmeros defeitos e projetos ainda por realizar: eu sou feliz! E não há nada neste mundo que eu queira mais do que a felicidade dos meus filhos. Não sou o dono da verdade, não consigo prever o futuro. Dadas as minhas circunstâncias, o melhor que posso fazer para os meus filhos é dizer: essa fórmula funcionou para mim, quem sabe ela é impessoal o suficiente para funcionar para vocês também! Tentem!

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A bela da tarde (Conto)


A bela da tarde
Conto de Thiago de Melo

            “No momento não estamos publicando literatura fantástica. Acreditamos que os leitores querem algo mais realista e pessoal. Obrigado por considerar a nossa editora para o envio de seus originais. Boa sorte na publicação de seu livro”.
            Artur deixou a folha cair na mesa do café. Essa já era a 8ª carta de rejeição que recebia sobre seu manuscrito “Arcadia, o paraíso dos dragões”.
– Acho que as outras 7 editoras sequer se darão ao trabalho de me mandar uma carta de rejeição. Humpf! “mais realista e pessoal”. É uma forma interessante de dizer “auto-ajuda”.
Tomou seu terceiro copo d’água desde que havia chegado e passou a observar o salão do café em que estava. Ia sempre àquele lugar. A tentativa do proprietário de imitar um café parisiense havia agradado. Gostava de poder atravessar uma porta e se teletransportar para a França. Com o ordenado de fome que recebia como assistente na Biblioteca Pública de São Paulo, esse era mesmo o mais perto que chegaria de Paris.
A maioria dos rostos se repetia. Empregados dos prédios de escritório próximos, adolescentes matando aula no meio da tarde, um ou outro velhinho olhando pela vitrine do café, buscando lá fora algo que haviam perdido por dentro, talvez repetindo na mente as palavras de Edith Piaf, que cantava no rádio: “Je ne regrette rien”.
As idades variavam, mas Artur já notara há muito que os clientes do café tinham sempre algo em comum: o celular. Exceto os velhinhos, claro. Entre as gerações mais novas os celulares eram onipresentes. Os executivos dos escritórios os encaravam a cada duas ou três palavras trocadas, num movimento rítmico, quase uma respiração. Já para os adolescentes o celular era como um órgão vital fora do corpo, mas com uma agravante: a necessidade constante de uma tomada. O marca-passo de um adolescente poderia ficar sem bateria, o celular jamais, seria pior que a morte.
Mas havia alguém diferente nesse dia. Vinte e poucos anos, adulta o suficiente para já ter provado um pouco do bem e do mal do mundo, mas ainda jovem demais para já ter se desiludido, ainda. Artur observava cada detalhe. Os cabelos castanhos desciam lisos ao lado dos olhos até os ombros. Os óculos grandes para o rosto fino precisavam ser reposicionados de quando em quando.
A composição era muito agradável para Artur: o café parisiense, Piaf cantando, o sol da tarde entrando pela grande vitrine ao lado da linda moça. Mas o que mais chamava a atenção era a falta de um celular. Em vez do ópio do Século 21 a garota encarava vividamente um livro. Ela desfrutava das palavras e a cada três ou quatro páginas levantava o rosto para observar os pedestres do outro lado do vidro.
“Que criatura fantástica. Jovem, bonita e leitora, em pleno terceiro milênio? Será possível?”, pensou.
Decidido a fazer contato, tomado de uma coragem infinita da qual não conhecia a origem, levantou-se, tirou da mochila uma cópia de seu livro que havia mandado encadernar e atravessou o café confiante em direção ao alvo. Faltando dois ou três passos a coragem infinita acabou. Hesitou. A jovem levantou o rosto e Artur, com a naturalidade de um ataque epilético, sentou-se à mesa ao lado. A jovem achou divertido o acontecido e sorriu levemente antes de retomar a leitura.
O coração de Artur martelava.
“Ela me viu. Ela sorriu pra mim. Preciso fazer alguma coisa.”
Nada aconteceu.
“Diz alguma coisa, idiota!”.
Ele virou o rosto para ela e balbuciou: – Eh... eh... - ela olhou na direção dele, que sorriu sem graça.
– Olá. Vejo que somos os últimos de uma espécie em extinção - e apontou para os livros que ambos tinham sobre as mesas e em seguida para o mar de rostos vidrados nos celulares.
Ela seguiu com o olhar o movimento da mão dele e depois sorriu com gentileza.
– É, parece que sim, mas espero que não sejamos os últimos, ainda precisamos dos escritores.
Ela fez menção de voltar o rosto para o livro, mas Artur atalhou.
– Eh... Que coincidência, não é? Por acaso eu sou escritor – disse, forçando ao máximo sua melhor cara de intelectual.  
– É mesmo? Que livro você publicou?
– Quer dizer, a parte da publicação ainda precisa se concretizar, mas quanto a ser escritor, minha contribuição para o mundo das letras já está bem aqui nas minhas mãos.
– Legal – disse a jovem, perdendo o interesse.
Com a coragem renovada por duas frases de diálogo ele foi à mesa da jovem, apontou para a cadeira vazia em frente a ela e perguntou: - Posso?
Antes que ela pudesse responder ele já havia se instalado.
– Artur Guerra, proto-autor mundialmente famoso. Muito prazer. E o seu nome, qual é?
– Oi, Artur. Meu nome é Taís.
Artur passou a falar de seu livro e do quanto gostava de dragões, cavaleiros e histórias de fantasia. Disse que trabalhava na biblioteca durante as manhãs e que passava as tardes naquele café se dedicando à nobre e quase perdida arte da escrita. Reclamou do quanto era incompreendido pelas editoras e do incrível potencial comercial de seu livro. Taís se limitava a ir concordando com meneios de cabeça a cada breve pausa daquele monólogo.
Depois de falar por longos minutos, Artur já não conseguia segurar os três copos d’água e o café que havia tomado desde que chegara. Ele pediu licença a sua jovem companhia e foi ao banheiro.
Estava animado. Tudo estava correndo muito bem. Lavou o rosto no banheiro e se olhou no espelho confiante. Tinha certeza de que havia causado uma boa impressão. “Ela gosta de livros. Eu sou escritor. A conexão é inevitável”, pensou.
Ao sair do banheiro não viu mais Taís à mesa em que estavam. Procurou em volta. Nada. Aproximou-se da mesa e viu um guardanapo embaixo de seu livro. O guardanapo tinha uma mensagem escrita.
“Oi, Artur, obrigada pela companhia. Desculpe ir embora dessa forma, mas tive contatos pessoais demais nas últimas tardes. Estou querendo ficar sozinha com meu livro, quero menos realidade e mais impessoalidade. Boa sorte com a publicação do seu livro. Taís S.”
Artur deixou o papel cair sobre a mesa.
– Já estou recebendo cartas de rejeição até em guardanapos. Uns dizem que querem algo “mais realista e pessoal”, outros “menos realidade e mais impessoalidade”. Oras! Editoras, leitores, o que essa gente entende sobre livros afinal?
Ficou ali, sozinho, vendo a vida passar na vitrine e murmurando a letra da música que tocava no café: “Je suis malheureux d’avoir si peu de mots à t’offrir en cadeau, Darling” *.


FIM



* "Sou infeliz por ter tão poucas palavras para te oferecer de presente, Querida".

Ler pra Esquecer - Seja Bem-Vindo (Apresentação do Blog)

       
    Esta é, oficialmente, a primeira postagem do blog. Seja bem-vindo.

    Este blog nasce hoje como um centro de resistência, como uma alternativa, como um refúgio para quem está precisando esquecer "o que há lá fora", seja o que for.

    No meu caso, a ideia de criar este espaço surgiu quando me vi saturado de tudo. Todos têm o seu limite, e eu encontrei o meu. Chega!

    Crise econômica, crise política, crise de refugiados, crise moral, inflação, corrupção, assassinatos,  manifestações, arrastões, disputas de ego, injustiças diárias e infinitas. Cansei.

    Uma pesquisa recente apontou que 1/3 da internet é composto por sites pornográficos. Na minha opinião, os outros 2/3 são compostos por notícias sobre as desgraças e fotos de bundas, cada vez maiores (tanto as desgraças quanto as bundas).

    Se tirarmos os sites pornô, as desgraças e as fotos de bundas, o que sobraria na internet? Pois é, sobraria o lerpraesquecer.blogspot.com.br.

"Se você está lendo este blog, você faz parte da resistência" (John Connor).

    Saturado que estava por tudo a minha volta, e sendo um apaixonado por literatura, tomei a decisão desesperada de me auto-desafiar a ler e escrever o máximo que conseguir enquanto este blog estiver online. Essa foi a alternativa que encontrei. Deseje-me sorte!

Já tentei ir para Nárnia, mas fiquei preso horas no armário e nada aconteceu.

Pensei em me auto-congelar por algumas décadas, mas achei que era uma fria...