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segunda-feira, 25 de abril de 2016

Vida é o que acontece enquanto você faz planos. Então, relaxe! (artigo)


            Resumo: inspirado pela frase de John Lennon, qual é a relação entre vida e planos?

Sempre admirei os compositores, os grandes compositores. Como eles conseguem(iam?) colocar tanta informação, tanto significado, tanta profundidade, em tão poucas linhas? E ainda ter essas linhas encaixadas em uma melodia? É quase inacreditável! Sinto que a minha prolixidade jamais me permitirá chegar a tão alto ideal. Talvez por isso mesmo esteja eu aqui escrevendo este artigo imenso para comentar algo que o grande John Lennon conseguiu expressar com uma única frase.

Life is what happens to you while you’re busy making other plans
Vida é o que acontece com você enquanto você está ocupado fazendo outros planos
                                                                                                                    John Lennon

            Essa frase faz parte da música Beautiful Boy, que o ex-Beatle compôs para seu filho, Sean, e já foi citada e recitada vezes sem conta em filmes, em outras músicas e em artigos despretensiosos escritos para blogs ;). Mas o que essa frase quer dizer?
           
 A princípio, parece óbvio: não importa o quanto você planeje, o quanto você programe e antecipe, a vida não vai seguir os seus planos. A vida vai simplesmente seguir. A vida vai “acontecer” com você enquanto você se ocupa fazendo seus planos, não importa que planos sejam esses.
Algumas vezes os seus planos vão coincidir com os caminhos da vida e, nessa hora, você vai se iludir achando que está “vivendo”, vai achar que está no controle da sua própria história. Mas não, esse momento terá sido apenas mais uma das infinitas coincidências dessa existência que chamamos vida.
Na essência, a mensagem de Lennon para o filho é bem clara: relaxe! Não se ocupe demais fazendo planos! Fazer planos não é viver. A vida vai acontecer independentemente dos seus planos, e isso não é um problema. É assim que as coisas funcionam.
Quem poderia discordar? Quantas pessoas passam anos planejando algo que, no final das contas, não dá certo? Quantas vezes a vida nos levou para caminhos completamente distintos daqueles que havíamos planejado? A vida aconteceu, inexoravelmente; já os planos, algumas vezes sim, outras não, e seguimos vivendo. Lennon estava coberto de razão.

Mas essa seria a interpretação mais direta, mais óbvia para uma frase que possui muitas camadas. E você não está aqui apenas para ler aquilo que é óbvio! Acredito que há um segundo nível de entendimento para essa frase que muitas pessoas deixam passar, especialmente nesse início do século XXI.
Diz a frase: “vida é o que acontece com você enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. Certo, mas, e se você não fizer plano algum? Nada, absolutamente nada! Se você se deixar levar completamente à deriva, sem rumo, sem propósito, ainda assim a vida vai “acontecer” com você? Basta não fazer nada para começar a “viver”? Foi isso que Lennon quis dizer?

A vida vai passar, não há dúvida quanto a isso. Já dizia Cazuza: “O tempo não para”. Mas o fato de a vida passar sem que você faça absolutamente nenhum plano significa que você a está vivendo? Não, infelizmente não.


Todos conhecemos exemplos do mal que é uma vida sem planos, sem direção. O mais comum  talvez seja o das pessoas que acabam de se aposentar e não sabem o que fazer da vida, não têm novos planos. Os recém aposentados costumam sofrer muito com o sentimento de inutilidade e de falta de propósito. Afinal, sem um objetivo sequer na vida, por mais simples que seja, pra quê viver? Existir apenas para acordar, comer e dormir para, no dia seguinte, repetir esse mesmo ciclo infinito e estéril? Isso é “viver”? Não, claro que não. Não admira que muitos aposentados entrem em depressão. Se nossa vida não tem rumo algum, enlouquecemos.

Para haver vida é preciso haver planos, mesmo que os planos da vida não sejam os nossos! 

Objetivos simples nos dão algo pelo quê levantar da cama todas as manhãs, já os objetivos impossíveis nos dão algo com o que sonhar todas as noites. Realizar não é essencial para viver. Lennon disse muito bem: a vida acontece enquanto fazemos planosAcredito que a verdade por trás daquela frase seja que a vida acontece quando aceitamos que os nossos planos podem não se concretizar, e não que, para haver vida, é preciso não haver planos. 
Sem comida podemos durar mais de uma semana, sem água, alguns dias, mas sem oxigênio a maioria de nós não resiste a mais do que dois ou três minutos. Combinando essa realidade física com a nossa realidade psicológica, acho seguro afirmar que nos mantemos vivos a partir dos movimentos rítmicos e constantes de inspirar, expirar e aspirar (a).
Quando nossos ancestrais ficaram de pé pela primeira vez, e viram a linha do horizonte, naquele momento, deixamos para trás nossa existência animal e começamos a viver. Nossa existência passou a depender da necessidade constante de alcançar aquele horizonte... e colonizamos o planeta. Nunca de fato alcançamos o horizonte, mas a vida não é sobre alcançar objetivos, é sobre seguir caminhando.
Como animais racionais que somos, precisamos de algo mais, de algo além de nossa mera existência para conseguir manter nossa sanidade em um mundo cada vez mais irracional. Por mais simples que seja o horizonte que buscamos, ainda temos a necessidade psicológica de tentar alcançá-lo. Do contrário, não estaríamos muito à frente do peixinho dourado dando voltas eternamente no aquário.

A vida é o que acontece com você enquanto você está ocupado fazendo outros planos. Então, relaxe, não dê importância demais aos planos e não se desespere se seus planos não se concretizarem. Não viva para fazer planos, faça seus planos e viva!



quarta-feira, 6 de abril de 2016

A bela da tarde (Conto)


A bela da tarde
Conto de Thiago de Melo

            “No momento não estamos publicando literatura fantástica. Acreditamos que os leitores querem algo mais realista e pessoal. Obrigado por considerar a nossa editora para o envio de seus originais. Boa sorte na publicação de seu livro”.
            Artur deixou a folha cair na mesa do café. Essa já era a 8ª carta de rejeição que recebia sobre seu manuscrito “Arcadia, o paraíso dos dragões”.
– Acho que as outras 7 editoras sequer se darão ao trabalho de me mandar uma carta de rejeição. Humpf! “mais realista e pessoal”. É uma forma interessante de dizer “auto-ajuda”.
Tomou seu terceiro copo d’água desde que havia chegado e passou a observar o salão do café em que estava. Ia sempre àquele lugar. A tentativa do proprietário de imitar um café parisiense havia agradado. Gostava de poder atravessar uma porta e se teletransportar para a França. Com o ordenado de fome que recebia como assistente na Biblioteca Pública de São Paulo, esse era mesmo o mais perto que chegaria de Paris.
A maioria dos rostos se repetia. Empregados dos prédios de escritório próximos, adolescentes matando aula no meio da tarde, um ou outro velhinho olhando pela vitrine do café, buscando lá fora algo que haviam perdido por dentro, talvez repetindo na mente as palavras de Edith Piaf, que cantava no rádio: “Je ne regrette rien”.
As idades variavam, mas Artur já notara há muito que os clientes do café tinham sempre algo em comum: o celular. Exceto os velhinhos, claro. Entre as gerações mais novas os celulares eram onipresentes. Os executivos dos escritórios os encaravam a cada duas ou três palavras trocadas, num movimento rítmico, quase uma respiração. Já para os adolescentes o celular era como um órgão vital fora do corpo, mas com uma agravante: a necessidade constante de uma tomada. O marca-passo de um adolescente poderia ficar sem bateria, o celular jamais, seria pior que a morte.
Mas havia alguém diferente nesse dia. Vinte e poucos anos, adulta o suficiente para já ter provado um pouco do bem e do mal do mundo, mas ainda jovem demais para já ter se desiludido, ainda. Artur observava cada detalhe. Os cabelos castanhos desciam lisos ao lado dos olhos até os ombros. Os óculos grandes para o rosto fino precisavam ser reposicionados de quando em quando.
A composição era muito agradável para Artur: o café parisiense, Piaf cantando, o sol da tarde entrando pela grande vitrine ao lado da linda moça. Mas o que mais chamava a atenção era a falta de um celular. Em vez do ópio do Século 21 a garota encarava vividamente um livro. Ela desfrutava das palavras e a cada três ou quatro páginas levantava o rosto para observar os pedestres do outro lado do vidro.
“Que criatura fantástica. Jovem, bonita e leitora, em pleno terceiro milênio? Será possível?”, pensou.
Decidido a fazer contato, tomado de uma coragem infinita da qual não conhecia a origem, levantou-se, tirou da mochila uma cópia de seu livro que havia mandado encadernar e atravessou o café confiante em direção ao alvo. Faltando dois ou três passos a coragem infinita acabou. Hesitou. A jovem levantou o rosto e Artur, com a naturalidade de um ataque epilético, sentou-se à mesa ao lado. A jovem achou divertido o acontecido e sorriu levemente antes de retomar a leitura.
O coração de Artur martelava.
“Ela me viu. Ela sorriu pra mim. Preciso fazer alguma coisa.”
Nada aconteceu.
“Diz alguma coisa, idiota!”.
Ele virou o rosto para ela e balbuciou: – Eh... eh... - ela olhou na direção dele, que sorriu sem graça.
– Olá. Vejo que somos os últimos de uma espécie em extinção - e apontou para os livros que ambos tinham sobre as mesas e em seguida para o mar de rostos vidrados nos celulares.
Ela seguiu com o olhar o movimento da mão dele e depois sorriu com gentileza.
– É, parece que sim, mas espero que não sejamos os últimos, ainda precisamos dos escritores.
Ela fez menção de voltar o rosto para o livro, mas Artur atalhou.
– Eh... Que coincidência, não é? Por acaso eu sou escritor – disse, forçando ao máximo sua melhor cara de intelectual.  
– É mesmo? Que livro você publicou?
– Quer dizer, a parte da publicação ainda precisa se concretizar, mas quanto a ser escritor, minha contribuição para o mundo das letras já está bem aqui nas minhas mãos.
– Legal – disse a jovem, perdendo o interesse.
Com a coragem renovada por duas frases de diálogo ele foi à mesa da jovem, apontou para a cadeira vazia em frente a ela e perguntou: - Posso?
Antes que ela pudesse responder ele já havia se instalado.
– Artur Guerra, proto-autor mundialmente famoso. Muito prazer. E o seu nome, qual é?
– Oi, Artur. Meu nome é Taís.
Artur passou a falar de seu livro e do quanto gostava de dragões, cavaleiros e histórias de fantasia. Disse que trabalhava na biblioteca durante as manhãs e que passava as tardes naquele café se dedicando à nobre e quase perdida arte da escrita. Reclamou do quanto era incompreendido pelas editoras e do incrível potencial comercial de seu livro. Taís se limitava a ir concordando com meneios de cabeça a cada breve pausa daquele monólogo.
Depois de falar por longos minutos, Artur já não conseguia segurar os três copos d’água e o café que havia tomado desde que chegara. Ele pediu licença a sua jovem companhia e foi ao banheiro.
Estava animado. Tudo estava correndo muito bem. Lavou o rosto no banheiro e se olhou no espelho confiante. Tinha certeza de que havia causado uma boa impressão. “Ela gosta de livros. Eu sou escritor. A conexão é inevitável”, pensou.
Ao sair do banheiro não viu mais Taís à mesa em que estavam. Procurou em volta. Nada. Aproximou-se da mesa e viu um guardanapo embaixo de seu livro. O guardanapo tinha uma mensagem escrita.
“Oi, Artur, obrigada pela companhia. Desculpe ir embora dessa forma, mas tive contatos pessoais demais nas últimas tardes. Estou querendo ficar sozinha com meu livro, quero menos realidade e mais impessoalidade. Boa sorte com a publicação do seu livro. Taís S.”
Artur deixou o papel cair sobre a mesa.
– Já estou recebendo cartas de rejeição até em guardanapos. Uns dizem que querem algo “mais realista e pessoal”, outros “menos realidade e mais impessoalidade”. Oras! Editoras, leitores, o que essa gente entende sobre livros afinal?
Ficou ali, sozinho, vendo a vida passar na vitrine e murmurando a letra da música que tocava no café: “Je suis malheureux d’avoir si peu de mots à t’offrir en cadeau, Darling” *.


FIM



* "Sou infeliz por ter tão poucas palavras para te oferecer de presente, Querida".

Ler pra Esquecer - Seja Bem-Vindo (Apresentação do Blog)

       
    Esta é, oficialmente, a primeira postagem do blog. Seja bem-vindo.

    Este blog nasce hoje como um centro de resistência, como uma alternativa, como um refúgio para quem está precisando esquecer "o que há lá fora", seja o que for.

    No meu caso, a ideia de criar este espaço surgiu quando me vi saturado de tudo. Todos têm o seu limite, e eu encontrei o meu. Chega!

    Crise econômica, crise política, crise de refugiados, crise moral, inflação, corrupção, assassinatos,  manifestações, arrastões, disputas de ego, injustiças diárias e infinitas. Cansei.

    Uma pesquisa recente apontou que 1/3 da internet é composto por sites pornográficos. Na minha opinião, os outros 2/3 são compostos por notícias sobre as desgraças e fotos de bundas, cada vez maiores (tanto as desgraças quanto as bundas).

    Se tirarmos os sites pornô, as desgraças e as fotos de bundas, o que sobraria na internet? Pois é, sobraria o lerpraesquecer.blogspot.com.br.

"Se você está lendo este blog, você faz parte da resistência" (John Connor).

    Saturado que estava por tudo a minha volta, e sendo um apaixonado por literatura, tomei a decisão desesperada de me auto-desafiar a ler e escrever o máximo que conseguir enquanto este blog estiver online. Essa foi a alternativa que encontrei. Deseje-me sorte!

Já tentei ir para Nárnia, mas fiquei preso horas no armário e nada aconteceu.

Pensei em me auto-congelar por algumas décadas, mas achei que era uma fria...