quarta-feira, 6 de abril de 2016

A bela da tarde (Conto)


A bela da tarde
Conto de Thiago de Melo

            “No momento não estamos publicando literatura fantástica. Acreditamos que os leitores querem algo mais realista e pessoal. Obrigado por considerar a nossa editora para o envio de seus originais. Boa sorte na publicação de seu livro”.
            Artur deixou a folha cair na mesa do café. Essa já era a 8ª carta de rejeição que recebia sobre seu manuscrito “Arcadia, o paraíso dos dragões”.
– Acho que as outras 7 editoras sequer se darão ao trabalho de me mandar uma carta de rejeição. Humpf! “mais realista e pessoal”. É uma forma interessante de dizer “auto-ajuda”.
Tomou seu terceiro copo d’água desde que havia chegado e passou a observar o salão do café em que estava. Ia sempre àquele lugar. A tentativa do proprietário de imitar um café parisiense havia agradado. Gostava de poder atravessar uma porta e se teletransportar para a França. Com o ordenado de fome que recebia como assistente na Biblioteca Pública de São Paulo, esse era mesmo o mais perto que chegaria de Paris.
A maioria dos rostos se repetia. Empregados dos prédios de escritório próximos, adolescentes matando aula no meio da tarde, um ou outro velhinho olhando pela vitrine do café, buscando lá fora algo que haviam perdido por dentro, talvez repetindo na mente as palavras de Edith Piaf, que cantava no rádio: “Je ne regrette rien”.
As idades variavam, mas Artur já notara há muito que os clientes do café tinham sempre algo em comum: o celular. Exceto os velhinhos, claro. Entre as gerações mais novas os celulares eram onipresentes. Os executivos dos escritórios os encaravam a cada duas ou três palavras trocadas, num movimento rítmico, quase uma respiração. Já para os adolescentes o celular era como um órgão vital fora do corpo, mas com uma agravante: a necessidade constante de uma tomada. O marca-passo de um adolescente poderia ficar sem bateria, o celular jamais, seria pior que a morte.
Mas havia alguém diferente nesse dia. Vinte e poucos anos, adulta o suficiente para já ter provado um pouco do bem e do mal do mundo, mas ainda jovem demais para já ter se desiludido, ainda. Artur observava cada detalhe. Os cabelos castanhos desciam lisos ao lado dos olhos até os ombros. Os óculos grandes para o rosto fino precisavam ser reposicionados de quando em quando.
A composição era muito agradável para Artur: o café parisiense, Piaf cantando, o sol da tarde entrando pela grande vitrine ao lado da linda moça. Mas o que mais chamava a atenção era a falta de um celular. Em vez do ópio do Século 21 a garota encarava vividamente um livro. Ela desfrutava das palavras e a cada três ou quatro páginas levantava o rosto para observar os pedestres do outro lado do vidro.
“Que criatura fantástica. Jovem, bonita e leitora, em pleno terceiro milênio? Será possível?”, pensou.
Decidido a fazer contato, tomado de uma coragem infinita da qual não conhecia a origem, levantou-se, tirou da mochila uma cópia de seu livro que havia mandado encadernar e atravessou o café confiante em direção ao alvo. Faltando dois ou três passos a coragem infinita acabou. Hesitou. A jovem levantou o rosto e Artur, com a naturalidade de um ataque epilético, sentou-se à mesa ao lado. A jovem achou divertido o acontecido e sorriu levemente antes de retomar a leitura.
O coração de Artur martelava.
“Ela me viu. Ela sorriu pra mim. Preciso fazer alguma coisa.”
Nada aconteceu.
“Diz alguma coisa, idiota!”.
Ele virou o rosto para ela e balbuciou: – Eh... eh... - ela olhou na direção dele, que sorriu sem graça.
– Olá. Vejo que somos os últimos de uma espécie em extinção - e apontou para os livros que ambos tinham sobre as mesas e em seguida para o mar de rostos vidrados nos celulares.
Ela seguiu com o olhar o movimento da mão dele e depois sorriu com gentileza.
– É, parece que sim, mas espero que não sejamos os últimos, ainda precisamos dos escritores.
Ela fez menção de voltar o rosto para o livro, mas Artur atalhou.
– Eh... Que coincidência, não é? Por acaso eu sou escritor – disse, forçando ao máximo sua melhor cara de intelectual.  
– É mesmo? Que livro você publicou?
– Quer dizer, a parte da publicação ainda precisa se concretizar, mas quanto a ser escritor, minha contribuição para o mundo das letras já está bem aqui nas minhas mãos.
– Legal – disse a jovem, perdendo o interesse.
Com a coragem renovada por duas frases de diálogo ele foi à mesa da jovem, apontou para a cadeira vazia em frente a ela e perguntou: - Posso?
Antes que ela pudesse responder ele já havia se instalado.
– Artur Guerra, proto-autor mundialmente famoso. Muito prazer. E o seu nome, qual é?
– Oi, Artur. Meu nome é Taís.
Artur passou a falar de seu livro e do quanto gostava de dragões, cavaleiros e histórias de fantasia. Disse que trabalhava na biblioteca durante as manhãs e que passava as tardes naquele café se dedicando à nobre e quase perdida arte da escrita. Reclamou do quanto era incompreendido pelas editoras e do incrível potencial comercial de seu livro. Taís se limitava a ir concordando com meneios de cabeça a cada breve pausa daquele monólogo.
Depois de falar por longos minutos, Artur já não conseguia segurar os três copos d’água e o café que havia tomado desde que chegara. Ele pediu licença a sua jovem companhia e foi ao banheiro.
Estava animado. Tudo estava correndo muito bem. Lavou o rosto no banheiro e se olhou no espelho confiante. Tinha certeza de que havia causado uma boa impressão. “Ela gosta de livros. Eu sou escritor. A conexão é inevitável”, pensou.
Ao sair do banheiro não viu mais Taís à mesa em que estavam. Procurou em volta. Nada. Aproximou-se da mesa e viu um guardanapo embaixo de seu livro. O guardanapo tinha uma mensagem escrita.
“Oi, Artur, obrigada pela companhia. Desculpe ir embora dessa forma, mas tive contatos pessoais demais nas últimas tardes. Estou querendo ficar sozinha com meu livro, quero menos realidade e mais impessoalidade. Boa sorte com a publicação do seu livro. Taís S.”
Artur deixou o papel cair sobre a mesa.
– Já estou recebendo cartas de rejeição até em guardanapos. Uns dizem que querem algo “mais realista e pessoal”, outros “menos realidade e mais impessoalidade”. Oras! Editoras, leitores, o que essa gente entende sobre livros afinal?
Ficou ali, sozinho, vendo a vida passar na vitrine e murmurando a letra da música que tocava no café: “Je suis malheureux d’avoir si peu de mots à t’offrir en cadeau, Darling” *.


FIM



* "Sou infeliz por ter tão poucas palavras para te oferecer de presente, Querida".

Um comentário:

  1. Adorei este conto, um final realmente surpreendente, não esperava. Continue assim, o caminho é este. Parabéns

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